Frases & Reflexões

7 frases de Mário Quintana que vieram dos livros menos citados

Sete frases de Mário Quintana tiradas dos livros em prosa dele, os menos citados. Humor seco, tristeza mansa e a origem de cada uma, nos 120 anos do poeta.

Ilustração em tons pastel de uma janela de hotel antigo em Porto Alegre com máquina de escrever, xícara de café e livros empilhados, evocando Mário Quintana

As sete frases abaixo vêm dos livros menos citados de Mário Quintana — os cadernos em prosa que ele publicou depois dos 60 anos, com humor seco e tristeza mansa. Não são os versos que a escola manda decorar nem os que viram legenda de foto. O gaúcho completaria 120 anos em 30 de julho, e a data serve de empurrão para ler o Quintana que ficou fora das antologias.

1. Sobre democracia

“Democracia? É dar, a todos, o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, isso depende de cada um.” Caderno H, Editora Globo, 1973

Quintana escreveu isso numa época de ditadura militar no Brasil, dentro de uma coluna que ele manteve por décadas no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre. A frase circula hoje em redes sociais, quase sempre sem essa origem — e às vezes atribuída a Fernando Sabino. Funciona como definição política: igualdade de oportunidade, não de resultado.

2. Sobre livros que cansam o leitor

“Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.” Caderno H, Editora Globo, 1973

Ele sabia do que falava. Quintana trabalhou décadas como revisor e tradutor na Editora Globo, lendo manuscritos alheios por ofício antes de virar autor lido pelo Brasil inteiro. A frase é o resumo prático de um leitor profissional cansado de livro ruim.

3. Sobre viagens

“Conhecer o mundo não adianta nada: as viagens apenas complicam a ignorância.” Caderno H, Editora Globo, 1973

A ironia rende mais quando se sabe que Quintana morou doze anos, de 1968 a 1980, no apartamento 217 do Hotel Majestic, no centro de Porto Alegre — hoje a Casa de Cultura Mário Quintana. Não era um poeta de mala pronta. A frase zomba de quem confunde deslocamento com entendimento.

4. Sobre o tempo

“O tempo é a insônia da eternidade.” Caderno H, Editora Globo, 1973

Sete palavras, uma inversão só. Em vez do clichê de que a eternidade é tempo sem fim, Quintana troca os papéis: o tempo vira o distúrbio, a eternidade vira quem não consegue dormir. Escrita já perto dos 70 anos, resume o tom do livro inteiro — aforismos curtos, sem explicação, feitos para incomodar por um segundo e depois voltar à cabeça do leitor no meio da noite.

5. Sobre pensar demais

“Se eu fosse acreditar mesmo em tudo o que penso, ficaria louco.” Caderno H, Editora Globo, 1973

Quintana nunca se casou nem teve filhos, morou a vida inteira sozinho em hotéis e quartos alugados, e construiu fama de solitário arredio a entrevistas longas. A frase não é motivacional: é autoironia de quem passava boa parte do dia a sós com os próprios pensamentos e sabia não confiar cegamente neles.

6. Sobre falar mal dos amigos

“É uma covardia falar mal dos inimigos: só se deve falar mal dos amigos.” Da Preguiça como Método de Trabalho, Editora Globo, 1987

Publicada quando Quintana já tinha 81 anos, essa é a inversão moral típica do livro em que ele expôs, sem rodeio, seu método de vida: preguiça como forma de deixar o poema amadurecer. Atacar inimigo é fácil e não custa nada; a frase provoca o leitor a admitir que a crítica mais sincera é sempre a que sobra para quem se ama.

7. Sobre retórica

“Os girassóis são as flores da retórica.” Da Preguiça como Método de Trabalho, Editora Globo, 1987

Uma imagem seca, sem explicação — e por isso mesmo difícil de esquecer. Girassóis se viram para o sol o dia inteiro, exibindo devoção; a retórica também vive de se virar para quem escuta. É o tipo de aforismo que Quintana deixava solto na página, sem parágrafo de apoio, confiando que o leitor completaria o resto.

A frase que ele nunca escreveu

“De repente tudo vai ficando tão simples que assusta. A gente vai perdendo algumas necessidades…”

Esse texto roda a internet há mais de uma década colado ao nome de Quintana. Não é dele. Segundo o site de checagem Boatos.org, a autora é a escritora Elaine Matos, que publicou o texto em dezembro de 2013 — quase vinte anos depois da morte do poeta, em 1994. A confusão é comum: textos motivacionais anônimos ganham nome de gente morta porque nome de gente morta não desmente nada.

Se você gosta de citação com fonte batida, confira também as frases de Drummond que ele realmente escreveu — outro poeta cercado de frases inventadas na internet.

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Perguntas frequentes

De quais livros de Mário Quintana vêm essas frases pouco conhecidas?

Vêm de Caderno H (1973) e Da Preguiça como Método de Trabalho (1987), coletâneas de aforismos e prosa poética que Quintana escreveu depois dos 60 anos — bem diferentes dos versos que caem em prova escolar.

Qual é a frase mais famosa de Mário Quintana?

Os versos mais repetidos vêm de 'Das Utopias' ('Se as coisas são inatingíveis... ora! não é motivo para não querê-las') e do Poeminho do Contra ('Eu passarinho!'), publicados décadas antes das frases em prosa reunidas aqui.

Mário Quintana escreveu o texto 'De repente tudo vai ficando tão simples'?

Não. Segundo o site de checagem Boatos.org, o texto é da escritora Elaine Matos, publicado em dezembro de 2013 — quase 20 anos depois da morte de Quintana, em 1994.

Quando nasceu e morreu Mário Quintana?

Nasceu em 30 de julho de 1906, em Alegrete (RS), e morreu em 5 de maio de 1994, em Porto Alegre, a cidade que o adotou e que hoje tem uma casa de cultura com o nome dele.

Anna A.

Anna A. · Colaboradora especializada

Colaboradora da Revista Destaque. Enfermeira e contadora, escreve sobre curiosidades, comportamento e bem-estar com olhar prático de mãe multitarefa.

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